Contraponto: A Arte como Resistência e Diálogo

17.º Festival das Artes QuebraJazz

Celebrar a 17.ª edição do Festival das Artes QuebraJazz é reafirmar Coimbra como um lugar de liberdade criativa. Ao longo de quase duas décadas, não construímos apenas um evento. Consolidámos uma casa comum onde a tradição e a vanguarda se abraçam, sob o olhar de um público que, como nós, não se contenta com o óbvio.

Em 2026, deixamo-nos guiar pelo “Contraponto”. Inspirados pela essência da composição musical, propomos um diálogo vivo entre opostos: o som e o gesto, o nacional e o internacional, o rigor da estrutura e a entrega da improvisação.

Esta dualidade vive no coração do nosso cartaz, espelhada na força do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Tal como as suas pedras, que resistiram às marés dos séculos e às cheias da história, o nosso Festival afirma-se como um símbolo de resistência.

Este ano, essa vontade de continuar é posta à prova nos Jardins da Quinta das Lágrimas. O cenário que nos acolhe apresenta-se mais despido, pois as intempéries recentes roubaram-nos a beleza verde que o vento levou. O jardim ficou com menos sombras e com as marcas visíveis da sua passagem. É nesta paisagem transformada, mais exposta e vulnerável, que a cultura reafirma a sua força. O Festival ergue-se entre as ausências e a memória do que partiu, provando que a arte, tal como a história que habita estas paragens, não se verga perante as vicissitudes e renova-se a cada nova edição.

A nossa programação é o reflexo desta persistência e da nossa natureza multidisciplinar. Começamos no Convento São Francisco com o corpo e o movimento da Companhia Nacional de Bailado. Seguimos para o cenário eterno da Quinta das Lágrimas, onde o piano de David Fray e a Orquestra Gulbenkian cruzam caminhos com o risco do jazz contemporâneo de John Hollenbeck, de Jeffery Davis ou das harmonias luso-brasileiras de Bianca Gismonti e Manuel de Oliveira.

Mas o Festival pulsa em todo o território. Está no cinema sob as estrelas em Santa Clara-a-Nova, nas artes plásticas, na gastronomia e na vibração única das Escadas Quebra Costas, onde o jazz recupera a sua essência mais próxima e espontânea.

O 17.º Festival das Artes QuebraJazz não é apenas uma sucessão de concertos, é um organismo vivo. É uma experiência de imersão onde cada nota, cada imagem e cada gesto são fios de uma harmonia superior.

Convido-vos a habitar este contraponto. Vamos celebrar juntos uma cultura que, tal como os nossos monumentos mais amados, se mantém firme, cosmopolita e eterna.

Sejam muito bem-vindos.

Miguel Lima
Diretor do Festival das Artes QuebraJazz 2026