No Abraço da Colina de Camões

Breves notas a propósito do 10º Festival das Artes

(13 a 22 de Julho de 2018)

 
 

Há momentos prodigiosos em que os constrangimentos do tempo linear (no seu movimento implacável) se encontram e se fundem em festa com a exaltação do tempo existencial e com a plenitude de entrega e de emoção a que este nos abre. Ao celebrar dez anos preservando (reinventando) uma identidade inimitável a de acolher num gesto único (e sob um mote inspirador) práticas de todas as Artes…  mas também a de permitir que, na vertigem de uma semana, estas frequentem lugares irrepetíveis (culminando nos abraços de crepúsculo da Colina de Camões) , o Festival das Artes de Coimbra trouxe-nos uma vez mais as condições de excepção de que tais momentos precisam. O que se segue é apenas o testemunho selectivo de alguns destes momentos ou das prestações que os tornaram possíveis. Selectivo decerto porque contido num dos núcleos duros do chamado «ciclo da música». Mas selectivo também porque conduzido por uma inequívoca perspectiva interior: a de alguém que, invocando a sua condição de participante-receptor, não deixa no entanto de, em simultâneo, afivelar uma outra máscara (a de recentíssimo membro da Direcção!)… e que assim mesmo aspira à contenção comunicativa (e ao pudor, se não estranhamento reflexivo) de um judicious spectator…

 

Permitam-me que, sem respeitar a sucessão cronológica, comece pelo encontro inesquecível com os Sete Lágrimas (Igreja do Convento de São Francisco, 14 de Julho). Inesquecível desde logo pelas muitas e variadas conversation pieces em que este consort (aqui na sua forma de quarteto) nos estimula a participar: enquanto explora um espectro de sete séculos de património popular e erudito (sempre com suculentas novidades), enquanto cruza as tradições europeias (sobretudo ibérica) com as suas vibrantes assimilações-conversões em diáspora (do Brasil a Macau…), mas também enquanto combina e sobrepõe (num verdadeiro diálogo) distintos modos de autenticidade (capazes de associar o rigor plausível das práticas musicologicamente informadas a uma imaginação explosiva e a uma espontaneidade desarmante). Inesquecível ainda pela beleza dos timbres, a pertinência das inflexões, a capacidade de criar uma atmosfera justa para cada um dos trechos: se o vilancico «Senhora del mundo», que abriu o programa, nos expôs assim de imediato a uma inimitável conversação em quarteto e à unidade na diferença que esta constrói (basta lembrar o modo como a conjugação mágica  dos timbres de Filipe Faria e Sérgio Peixoto consegue preservar por inteiro as diferenças de emissão, de tessitura e de projecção que os identificam!), a sucessão de pequenos grandes universos (atingindo-nos em pleno logo nos primeiros compassos de cada trecho) manteve-se porém sem soluções de continuidade até ao envolvente «É tarde, ela dorme…» (proposto como esperado encore). 

 

Saltemos a seguir para a colina de Camões, saudando a noite emocionante do regresso a casa do soprano Lara Martins (17 de Julho). Um regresso cumprido sob o fogo feliz da sua celebrada Carlotta Guidicelli (a personagem que infatigavelmente reinventa no palco do Her Majesty’s Theatre)? Eu diria que sim. Com isto não quero apenas evocar a naturalidade da coloratura e dos sobreagudos ou a capacidade de converter as desigualdades dos registos (e a opacidade de algumas notas de passagem) em recursos expressivos irresistíveis. Quero também reconhecer a autoridade incandescente da declamação e o modo como esta se conjuga com uma capitosa ironia. Quero ainda e por fim saudar a pertinência estilística de um «efeito» de continuum (consumado com uma suprema elegância): é que ouvir assim «Mein Herr Marquis» e «Conduit moi vers celui que j’adore» (mas também o hoje incontornável «Meine Lippen…») significa na verdade perceber até que ponto as práticas de West End e da Broadway (verdadeiros presentes-ausentes neste concerto)  devem ser levadas a sério como herdeiras directas do Théâtre_des_Bouffes-Parisiens e do Theatre an der Wien e das suas gloriosas tradições (com a já muito operática Giuditta a dizer-se explicitamente musikalische Komödie) . Mas a verdade é que o regresso a casa nos trouxe ainda uma emocionada «Coimbra», na notável versão de David Wyn Lloyd. Se agora o acentuo é no entanto sobretudo para lembrar que esta noite foi ainda a de David Wyn Lloyd (numa brilhantíssima execução do Concerto em sol menor de Telemann), como foi também, last but not least, a do reencontro de Andrew Swinnerton com a Orquestra Clássica do Centro (um reencontro precioso… que nos valeu uma Sinfonia nº 1 de Beethoven de uma elegância e de uma transparência raras).

 

Fiquemos na colina de Camões, evocando agora as duas noites seguintes. Ouvir o piano do jovem e reconhecidíssimo Geoffroy Couteau (18 de Julho) é só por si uma oportunidade privilegiada. Permitir-me-ei no entanto duas acentuações selectivas, uma delas a reconhecer os inesquecíveis minute particulars que iluminam a sua leitura da mal-amada Sonata op. 2 de Brahms, a outra a sublinhar a vibrante assimilação de conjunto que distingue a sua interpretação da sonata op. 111 de Beethoven. Se a leitura da primeira não evita uma impressão de desigualdade, com quebras de tensão apreciáveis (privando os andamentos extremos da transparência ou da justificabilidade da sua estrutura), os pormenores a ter em conta afirmam-se verdadeiramente preciosos: refiro-me por um lado ao cantabile infinito que distingue a exposição do tema do Andante (e o ben marcato da sua linha, por uma vez admiravelmente respeitado na sua fluidez e naturalidade), refiro-me por outro lado à veemência do staccato do Scherzo e sobretudo ao modo como o Poco piú moderato do Trio (na serenidade inesperada do seu material melódico e harmónico) se nos impõe como uma antecipação feliz das miniaturas da maturidade, conferindo uma coerência muito especial à interpretação na íntegra dos três Intermezzi op. 117 (os quais, numa inversão-expansão do programa proposto, Geoffroy Couteau interpretou logo a seguir à sonata). Já no que diz respeito à impressão deixada pela op.111, as palavras são inteiramente supérfluas: é uma daquelas versões cumpridas como que de um fôlego, iluminada por uma evidência e uma unidade de sentido verdadeiramente excepcionais, com um domínio das componentes estrutural e anímica no mínimo surpreendentes num pianista tão jovem. Com uma nota final a sublinhar a lição de inteligente coerência a que este recital admiravelmente nos expõe: ouvir estas duas sonatas na sua ordem cronológica invertida permite na verdade surpreender inesperados paralelismos (envolvendo os temas do andante con expressione e da arietta, mas também os trilos cintilantes que precipitam os últimos compassos)…   como se a pergunta fosse agora formulada pelo jovem Brahms e as respostas ou as sementes da resposta se encontrassem já todas (em genial antecipação) no «velho» Beethoven…

 

A noite seguinte (19 de Julho) trouxe-nos Sandra Medeiros e Francisco Sassetti, com um programa longamente pensado e experimentado e outras tantas lições de sensibilidade e de estilo. Começo pelo relativamente menos conseguido: as incursões puccinianas, iluminadas pela procura pertinente de coloridos tímbricos alternativos (em contraste efectivo com o resto do programa), mas também marcadas por uma ênfase declamatória (e uma corrida aos decibéis) que, sendo eloquente, permanece estranha às lágrimas com sorrisos de Lauretta, à contenção pungente de Liú  e à sensualidade à flor da pele de Musetta. Sem prejuízo das irrepreensíveis interpretações de Purcell e Haendel, eu diria que é na reinvenção do canto nobile das últimas décadas do século XVIII (já sobressaltado pelos sinais do Sturm und Drang) que os meios vocais, a condução quase instrumental da linha e o sentido de coloração de Sandra Medeiros encontram o seu terreno mais propício. A expansão insuspeitada pelo registo grave (que tem adquirido peso e naturalidade), a insolência dos agudos (com uma projecção que ganharia em prescindir da mediação do Tonmeister) e a entrega incondicional ao discurso dos afectos (num registo de fúria que não perde nunca de vista os cânones da nobile sprezzatura) permitem-nos de resto seleccionar dois momentos imperdíveis: a ária do I Acto da mozartiana Elettra («Tutto nel cor vi sento») e a incandescente Medea recriada pelo nosso Jerónimo Francisco de Lima («Rabia, furor, dispetto…»). Lamentando não beneficiarmos hoje de uma orquestra que pudesse levar ao rubro o diálogo dos timbres e das tessituras? Eu diria que sim. O que não significa de modo nenhum negligenciar a competência e o cuidado de Francisco Sassetti, de resto responsável por um dos momento mais comoventes da noite, a evocar em música de sua autoria (depois do Clair de Lune de Debussy) a memória de seu irmão Bernardo, num desses instantes únicos em que, comemorando os dez anos de Festival e a generosidade de todos os que o têm apoiado, o abraço da Colina de Camões se entregou a uma festa estonteante de cores e de luzes.

 

Deixei para o fim os concertos de abertura e de encerramento (a 13 e 22 de Julho). Não decerto para confrontar os espaços (o Grande Auditório do Convento de São Francisco e o Anfiteatro Colina de Camões)…  e as mediações acústicas (respectivamente, sem e com a mediação de um Tonmeister). Muito menos para comparar duas orquestras notáveis (a Filarmónica Portuguesa e a Metropolitana de Lisboa) e os seus inspirados maestros (Osvaldo Ferreira e Pedro Amaral). Antes para reunir num abraço final outros dois momentos incomparáveis: uma «Sagração da Primavera» (13 de Julho) de um rigor implacável e de uma qualidade instrumental exemplar, conferindo uma evidência notável ao novum da sua semântica de repetição e à estrutura que a torna possível (tudo isto acompanhado pelo pathos de fisicalidade que, com ou sem a mediação da dança, distingue as grandes Sagrações!); uma Sinfonia do Novo Mundo (22 de Julho) de uma irresistível sedução tímbrica, combinando a dilatação temporal das secções mais lentas (a começar pelo segundo grupo temático do primeiro andamento) com uma concepção quase da camera das intervenções solistas — estas a contrastarem voluptuosamente com os clímaxes descomplexados dos tutti… (e a permitirem-nos assim corroborar o contributo precioso do Tonmeister Pierre Lavoix!).

 

É certo que privilegiar estes dois grandes momentos significa negligenciar o que afinal não é negligenciável: a projecção, a paleta de coloridos e a agilidade sem mácula de Yang Liu no concerto nº 1 de Bruch; a sobriedade, o rigor e os pianissimi impalpáveis de Inês Costa no Concerto nº 21 de Mozart. Estes são porém apenas dois exemplos do muito que ficou por evocar, tanto mais que o «ciclo da música» não ficou por aqui… e teve ainda um prolongamento memorável (através da música de Lopes Graça e de Bernardo Sassetti… e da música das palavras de Afonso Cruz) na magnífica noite de bailado do dia 21 («Murmúrios de Pedro e de Inês»). O que nos promete novos e estimulantes abraços… para daqui a um ano!

 
 

José Manuel Aroso Linhares

Membro da Direcção do Festival das Artes

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra