LA VALSE

Curta-metragem

Realização João Botelho

Coreografia Paulo Ribeiro

Música Maurice Ravel, versão musical da Orchestre du Théâtre des Champs-Élysées sob a direção musical do Maestro Pedro de Freitas Branco (Paris, 1953)

Coprodução CNB / Ar de Filmes
com os bailarinos da Companhia Nacional de Bailado

(…) Então dancemos, dancemos, no ar, no fogo, na água e na terra, no meio da destruição e do caos que a Europa de hoje é quase tão angustiante como a Europa de há cem anos. (…)

João Botelho

Adoro valsas, mesmo em silêncio, adoro o gingar e a fúria ternária.

É uma obsessão é um vento que acaricia ou devasta. É uma musicalidade de todas as possibilidades.(…)

Paulo Ribeiro

Foi intenção de Maurice Ravel, cerca de 1906, compor para orquestra um tributo à valsa e a Johann Strauss II. Pretendia que fosse uma obra romântica, que intitulou La Valse, un poème chorégraphique, e sobre a qual escreveu ser “uma espécie de apoteose da valsa vienense mesclando-se na minha cabeça com a ideia de turbilhão fantástico do destino.” Acontece porém que Ravel acaba por se alistar no exército e interrompe a sua criação musical.

Só em 1919, após o final da 1ª Guerra Mundial, retoma a ideia, em resposta a uma encomenda de Sergei Diaghilev, para os Ballets Russes. Ravel refaz integralmente a conceção inicial. Influenciado pela experiência da guerra, o romantismo perde dominância e o ritmo da valsa deriva frequentemente para o caos, numa metáfora à Europa de então. A estreia acabou por acontecer em dezembro de 1920, sem que Diaghilev a tivesse utilizado, por a ter considerado “não como um ballet, mas como um retrato de um bailado.” George Balanchine viria a coreografar a composição de Ravel, cerca de trinta anos mais tarde. Quando os laços da Europa são repetidamente equacionados, a CNB desafia um coreógrafo e um realizador a explorarem a composição de Ravel e a conceberem um olhar cinematográfico sobre o movimento dos corpos.

A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

Direção / Coreografia Olga Roriz

Música Igor Stravinski

Cenografia Pedro Santiago Cal

Figurinos Olga Roriz e Pedro Santiago Cal

Desenho de luz Clemente Cuba

O programa La Valse / A Sagração da Primavera é a forma da CNB celebrar o 1º centenário sobre a estreia da obra de Stravinski. A curta-metragem La Valse complementa, pela diferença, um programa que não viveria apenas com A Sagração da Primavera. Enquanto a obra coreografada por Olga Roriz apela à redenção e à confiança no futuro, a composição musical de Ravel é uma metáfora à decadência após a Primeira Guerra Mundial que João Botelho e Paulo Ribeiro transpõem para a actualidade, fiéis à ideia do compositor que denominara de poema coreográfico esta sua criação.

Apenas o facto de escrever ou deixar escapar-me da boca a conjugação destas duas simples palavras «a minha Sagração», me transtorna a mente, o coração, a flor da pele. O tempo parece não ter passado desde que, ainda jovem, interpretei o papel da eleita do coreógrafo Joseph Roussillo no Ballet Gulbenkian.O tempo parece não ter passado desde a primeira vez que vi, num minúsculo televisor, a versão de Pina e ter decidido nunca coreografar esta peça. O tempo parece não ter passado desde a polémica estreia de Nijinsky/Stravinsky. Mas o tempo passou e a obra perdura no nosso imaginário cultural. O fascínio e respeito pela partitura foram determinantes para a minha interpretação, construção dramatúrgica e coreográfica da peça.

A fidelidade ao guião de Stravinsky foi, desde o início, o único caminho com o qual me propus confrontar. No entanto, dois aspetos se distanciaram do conceito original. Visões personalizadas que imprimem à história uma lógica mais possível à minha compreensão, mais aprazível à minha manipulação. Em 1º lugar concedi ao personagem do Sábio um protagonismo invulgar, sendo ele que inicia a peça. Ainda em silêncio e durante todo o Prelúdio habita o espaço solitário e vazio traçando nos seus gestos um percurso de premunição, antecipação e preparação do terreno para o ritual. A 2º opção, que se distancia drasticamente do conceito original, reside no facto de o personagem da Eleita não ser tratada como uma vítima no sentido dramático da questão. A minha Eleita sente-se uma privilegiada e quer dançar até sucumbir. Em nenhum momento se sente obrigada ou castigada nem o medo a invade. Ela expõe a sua força e energia vitais lutando cegamente contra o cansaço.

Olga Roriz, maio de 2010

“A estreia de Le Sacre du Printemps no Teatro dos Champs-Elysées, a 29 de Maio de 1913, ficou célebre por uma reacção tão hostil de parte do público mais conservador que conduziu a verdadeiras cenas de pugilato. À distância, esta reacção parece ter sido causada mais pela ousadia provocatória da coreografia de Nijinsky para os Ballets Russes do que propriamente pelo carácter igualmente inovador da partitura de Stravinsky, de que talvez o público parisiense não se tenha podido aperceber na devida dimensão pela própria surpresa que constituía. O Sacre é, de facto, uma obra revolucionária, com as suas dissonâncias extremas a desafiarem os cânones do sistema tonal tradicional, os seus ritmos e acentuações métricas irregulares, a sua energia selvagem. Quase cem anos mais tarde, depois de ter influenciado de uma forma ou de outra toda a Música do século XX que se lhe seguiu, a obra continua a provocar-nos uma sensação exultante de novidade, de ruptura e de descoberta de novos continentes.”

Rui Vieira Nery